Carregando
Recife Ao Vivo

CBN Recife

00:00
00:00
Literatura

As gralhas e os borrões indesejados

Por: SIDNEY NICÉAS
Em ritmo de Carnaval, Zé Amorim volta ao Tesão e divide suas observações da escrita e literatura

Foto: reprodução/ Gizmodo Uol

10/02/2024
    Compartilhe:

*Por Zé Amorim

Comecei a ler a obra de um poeta que aprecio muito. Lá pelas tantas vi que havia um verso estranho, fotografei a estrofe em questão e lhe enviei uma mensagem: dá uma lida com calma na quebra de paralelismo acima. Ele me agradeceu e respondeu: “não é quebra, é gralha mesmo, saiu ‘seu’ em vez de ‘se’. Sempre aparece uma letra filha da puta onde não deve”.

Infelizmente, erros acontecem e passam, ou pior, ficam! Só passam mesmo na tiragem seguinte. Tenho um colega de formação que dizia que corrigir redação é emburrecedor, porque o professor fica com a memória fotográfica dos erros. Em verdade, os erros não ficam adstritos somente aos estudantes, ou a quem tem pouca escolaridade, como pensa o senso comum. Pelo contrário, eles aparecem também em nomes do alto escalão da literatura que, mesmo não querendo, incorrem no deslize, ainda que em número muito menor, obviamente. Seja gralha ou erro gramatical, ninguém está livre deles: João Cabral de Melo Neto, Vinicius de Moraes, Chico Buarque e outros escritores de ofício não escaparam ao escorregão, e não me refiro à licença poética. Não estou querendo aqui achincalhá-los, quero dizer que, se ocorreu com os nossos melhores escritores, por que ficaríamos isentos? Por outro lado, não pretendo naturalizar erros ou gralhas – longe disso, a última coisa que um autor ou equipe editorial desejam é um livro com equívocos para lhes azedar o fígado. No entanto, erros e gralhas volta e meia pousam em páginas alheias. Quem nunca os viu é porque conhece pouco o idioma, ou está distanciado dos livros.

Certa vez, em entrevista com o linguista Sírio Possenti, Juca Kfouri comentou que durante a sua trajetória jornalística conheceu excelentes revisores que eram péssimos escritores. Sírio respondeu: “talvez seja por isso”. E faz sentido, pois a cabeça de ambos funciona de maneira diferente: enquanto o revisor está preocupado com ortografia, sintaxe, pontuação, concordância, ou seja, com uma leitura técnica, o escritor, este ser inteligentemente avoado, está em outro mundo, preocupado com a sonoridade, o estilo, a escolha da palavra exata etc. Espera-se que o escritor seja capaz de corrigir o seu trabalho. Mas convenhamos que revisar o próprio texto é um perigo, pelo fato de já termos a memória dele internalizada. No ramo editorial, um livro, antes de ir para o prelo, passa por umas três leituras e, às vezes, até por revisores diferentes.

Em geral, cometer uma gralha é menos danoso do que um erro clássico de ortografia ou acentuação, exceto o famoso caso de escatografia na segunda edição de Poesias Completas de Machado de Assis. Tipografaram “lhe ‘cagara’ o juízo” em vez de cegara. Essa foi de tirar o fio do Machado, e o juízo também! Uma vez, na disciplina de Literatura Portuguesa, fiz uma gralha bem no título de meu ensaio, tudo porque dupliquei a letra “i” (que presepada!). Quando o professor Celdon bateu o olho no neologismo já me perguntou: “o que é isso, um gracejo?” Às vezes o corretor é mais espirituoso que o autor, rs! Hoje, lendo com distanciamento, vejo que o título ficou até poético, pois não é sempre que se consegue fundir o nome do autor ao nome da obra. Pensando bem, se eu fizer poema em homenagem ao pai da língua portuguesa, se chamará Luisíadas. 

 

 

Natural de Floripa, Zé Amorim é poeta e compositor, e possui formação em Lingua Portuguesa pela UFSC. Em 2017, publicou, com Diego Moreira, o livro Movimento Pornaso. Em 2020, abandonou a docência para se dedicar integralmente ao seu atual projeto: “O barbeiro e o poeta”, uma barbearia cultural.

 

instagram.com/obarbeiroeopoeta/

Notícias Relacionadas

Comente com o Facebook