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Literatura

Christian Gonzatti: “Não existem pautas LGBTQIA+ sem política”

Por: SIDNEY NICÉAS
Pesquisador lança livro “Pode um LGBTQIA+ Ser Super-Herói no Brasil?”, sobre censura e diversidade na cultura Nerd

Foto: Reprodução O Globo/Divulgação/Arte Tesão Literário

19/06/2022
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*por Sidney Nicéas

Falar sobre a temática LGBTQIA+ é quase sempre polêmico, isso porque não faltam desinformação, visões arraigadas machistas, narrativas ideológicas forçando a barra, dentre outros ingredientes. Combater isso com um “bom combate” é tarefa para o pesquisador gaúcho Christian Gonzatti, que usa a informação, o olhar humano e a coleta e análise de números que derrubam qualquer miopia conservadora - basta querer olhar e ver. Atento à cultura Pop, Gonzatti desenvolveu sua tese de Doutorado com foco nesse segmento. “Entender mais sobre diversidade é o primeiro passo para o enfrentamento das violências e desigualdades. E a cultura pop pode ser uma ferramenta importantíssima para facilitar esse entendimento. Afinal, estamos falando de personagens e histórias que chegam em muitas camadas da nossa cultura”, explica.

Gonzatti teve um baita empurrão para ampliar a sua pesquisa em 2019, após um ciberacontecimento: a tentativa de censura por parte do então prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, da HQ da Marvel “Vingadores: A Cruzada das Crianças” na Bienal do Rio de Janeiro, por conta de um beijo gay entre os super-heróis Wiccano e Hulkling, inflando uma horda de conservadores e fundamentalistas bitolados na ideia absurda de que aquilo poria em risco as crianças. “Este caso surgiu como um objeto para materializar alguns elementos do que eu vinha investigando: disputas envolvendo diversidade na cultura nerd”, conta o pesquisador, que acabou fazendo de tudo isso um livro, “Pode um LGBTQIA+ Ser Super-Herói no Brasil?” (Editora Devires), lançado ontem (sábado, 18) em São Paulo, na Poc Con, feira LGBTQIA+ de Quadrinhos e Artes Gráficas.

A investigação no livro abrange, também pela mídia, como o tema é tratado no país, ainda mais em meio a um governo de extrema direita. A obra acaba sendo um documento histórico-político da perseguição sofrida pelas representações positivas de personagens LGBTQIA+ na cultura pop, revelando como casos como este da Bienal 2019 se tornaram possíveis e, mais ainda, como parte da sociedade tem lutado contra o ódio e a intolerância. “Precisamos ter em mente que a cultura hegemônica no Brasil ainda é machista, racista, LGBTQIA+fóbica. Por falta de uma educação transformadora e que aborde diversidade, ainda somos socializados através de vetores culturais que transformam a diferença em desigualdade”.

Não bastasse a pesquisa de Doutorado e o livro, Christian Gonzatti ainda mantém a plataforma Diversidade Nerd, cujo perfil no Tik Tok possui mais de 350 mil seguidores. Este perfil, aliás, também o ajudou na ideia de fazer o livro, já que é um espaço importante de informação e popularização dos temas LGBTQIA+. “Recebo todos os dias mensagens de adolescentes e jovens LGBTQIA+ e de pessoas aliadas da diversidade que agradecem a maneira como eu tenho tentado popularizar esses temas com uma linguagem menos acadêmica. O livro é, então, uma forma de dar continuidade a esse trabalho de popularização de temas que são muito mal compreendidos pela sociedade brasileira”, ratifica.

Mestre e Doutor em Ciências da Comunicação, Gonzatti não mede palavras para afirmar a importância da política e da educação para mudar o cenário atual: “Não existem pautas LGBTQIA+ sem política, tendo em vista que o gênero e a sexualidade são também conceitos políticos. A construção histórica da heterossexualidade compulsória e da heteronormatividade são também movimentos políticos. Dissociar esses processos da política é cair em ingenuidade e esvaziar a sua complexidade. Ainda há muito para se avançar em relação à construção de diretrizes educacionais”, conclui.

Como não poderia deixar de ser, a gente conversou com Christian Gonzatti sobre o livro novo, a violência contra pessoas LGBTQIA+, sobre o amor. Com palavras concisas, Christian revela o quanto ainda precisamos desenvolver o amor em nós para avançarmos enquanto raça humana. “O amor é uma forma importante de exercitar a alteridade”. Leia abaixo a entrevista na íntegra e, ao final, saiba como comprar o livro e entrar em contato com o autor e seu trabalho.


TESÃO LITERÁRIO- O caso da HQ da Marvel na Bienal do Rio em 2019 foi o gatilho para que o livro saísse da cabeça, ou há uma construção anterior - ou ambas as alternativas estão corretas? Fala pra gente sobre o nascimento da pesquisa e, consequentemente, do livro…

CHRISTIAN GONZATTI- O livro é resultado da minha pesquisa de doutorado, que iniciou em 2018 no âmbito do PPGCCOM da Unisinos. O caso surgiu como um objeto para materializar alguns elementos do que eu vinha investigando: disputas envolvendo diversidade na cultura nerd. 

TL- A pesquisa que resultou no livro revela muito do que somos em sociedade - aliás, a eleição de Bolsonaro ajudou a trazer à lume os muitos conservadores e fundamentalistas espalhados pelo país. Qual o real nível de preconceito do nosso povo?

CG- Precisamos ter em mente que a cultura hegemônica no Brasil ainda é machista, racista, LGBTQIA+fóbica. Por falta de uma educação transformadora e que aborde diversidade, ainda somos socializados através de vetores culturais que transformam a diferença em desigualdade. 

TL- As falácias criadas em torno dos temas LGBTQIA+ se disseminam com velocidade impressionante. Esse efeito manada que as redes sociais produzem, criando bolhas limitantes, é a principal fonte de desinformação também acerca desses temas?

CG- Sem dúvidas, as plataformas digitais potencializaram a desinformação em torno de questões de gênero e sexualidade. A visibilidade de movimentos de extrema-direita como o “Escola Sem Partido” (que, na verdade, é a proposta de uma escola ainda mais limitada em relação a formar indivíduos críticos) não pode ser pensada sem essas lógicas, assim como as mentiras em torno da ideologia de gênero, um espantalho usado contra pessoas LGBTQIA+.

TL- Por outro lado, o seu perfil no Tik Tok, Diversidade Nerd, já passa de 350 mil seguidores e tem cumprido bem a missão de levar informação e conteúdos relevantes sobre o tema. Ações como a Diversidade Nerd são antídotos indispensáveis?

CG- Sim, funcionam como espaços pedagógicos e que criam ruídos na desinformação. É o que me mobiliza como pesquisador. 

TL- A política é um dos caminhos para a conquista de direitos, mas você acha que a politização das pautas LGBTQIA+ (quem fala disso é de esquerda ou comunista!) tem prejudicado a luta por direitos? Ou, pelo contrário, ajuda a colocar foco em sua relevância?

CG- Não existem pautas LGBTQIA+ sem política, tendo em vista que o gênero e a sexualidade são também conceitos políticos. A construção histórica da heterossexualidade compulsória e da heteronormatividade são também movimentos políticos. Dissociar esses processos da política é cair em ingenuidade e esvaziar a sua complexidade. 

TL- Aliás, quais os avanços políticos nessa temática?

CG- Apesar de alguns avanços na representação política, através da conquista de alguns direitos, como o de união civil, ainda há muito para se avançar em relação à construção de diretrizes educacionais. 

TL- A transfobia é crime no Brasil desde 2019, mesmo assim o país é ainda o que mais mata pessoas trans e travestis em todo o mundo. Quando (e por que) matar se tornou “remédio”?

CG- Historicamente, a violência, e a violência final, como tirar a vida, são formas de se punir aquilo que é considerado pela norma como “desvio”. 

TL- Em 2018, a apresentação de uma peça teatral foi cancelada no Festival de Inverno de Garanhuns (PE) por imaginar Jesus Cristo como uma mulher transexual (na verdade, que diferença faria Jesus ter sido homem, mulher ou trans?). Pensando na história religiosa cristã, como você enxerga esse tipo de contra senso, já que Jesus hoje estaria igualmente ao lado dos que sofrem? Alguma dúvida de que mataríamos ele, Jesus, novamente?

CG- Acho muito interessante pensar que Jesus, como símbolo cultural, representava um corpo periférico e contra hegemônico. Sem dúvidas, seria assassinado novamente. 

TL- Como fazer as pessoas compreenderem que o amor não tem rótulos, que família é um núcleo nutrido pelo amor (não pelo gênero), que sexualidade não é escolha, que diversidade é amor?

CG- Através da educação. A educação é o dispositivo transformador que precisamos reivindicar. 

TL- A arte é sempre caminho para o humano em nós? Como a cultura pop tem contribuído para desmistificar a temática LGBTQIA+?

CG- Através de representações positivas, em séries como Sex Education e Heartstopper, e também sendo usada como elemento para propor discussões mais complexas sobre masculinidades, feminilidades, sentidos queer. 

TL- O que você pode dizer àqueles que se fecham para tentar compreender o outro, aos que ainda estão arraigados a uma visão antiga de mundo, aos que acham que as crianças vão se tornar gays por conta de uma HQ, aos que acham que ser gay é algo abjeto?

CG- Com o perdão da piada, como dizia o E.T Bilu, apenas que busquem conhecimento. E leiam o meu livro. 

TL- O que é o amor pra você?

CG- Uma forma importante de exercitar a alteridade. Gosto do amor em Bell Hooks, que o pensa além da romanticidade, e como ferramenta política. 

 

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COMO ADQUIRIR O LIVRO

https://www.queerlivros.com.br/produto/pode-um-lgbtqia-ser-super-heroi-no-brasil.html 

CONTATOS

https://www.instagram.com/chrisgonzatti/ 

https://www.instagram.com/diversidadenerd_/ 

https://www.tiktok.com/@diversidadenerd

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