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Literatura

Conceição Rodrigues: “A minha salvação é a Literatura”

Por: SIDNEY NICÉAS
Os Dedos das Santas Costumam Faiscar, de Conceição Rodrigues, será lançado sábado no Recife

Foto: Divulgação

18/01/2022
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*por Sidney Nicéas

“Um livro pura pele das que sabem que palavra é substantivo feminino e que mulher tem fala de fogo e é Deus de saia a causar redemoinhos (...) Um livro para acender faíscas, desatar os nós dos nossos conceitos e preconceitos e que vai virar um livro-bíblia da literatura feminista”. Essa frase é de Cida Pedrosa, do texto que sairá no novo livro de Conceição Rodrigues, Os Dedos das Santas Costumam Faiscar (Patuá, 2022), que será lançado neste sábado (22), às 18h, na Cultura Nordestina, no Recife - a obra contou com um lançamento virtual no último dia 14, no perfil da editora Patuá.

As palavras de Cida não são meros enfeites. A literatura de Conceição é lancinante, rompe mesmices e brinca com as convenções de forma incisiva. Não à toa ela se define como “escrava da Literatura e de tudo aquilo que me chama a atenção, me incomoda ou não deixa meu juízo descansar... para servir à Literatura…”, afirma, dando inevitável realce ao que produz, complementando: “No caso da poesia, é preciso fazer a intersecção entre a forma do texto e o jeito em que o eu lírico quer se colocar... inclusive quando se dá de cara com o que é terrível, cruel, doloroso”

Neste O Dedo das Santas Costumam faiscar, Conceição Rodrigues quebra as convenções, quebra as palavras ao som do que pede o poema, quebra o leitor com um remédio sem receita. Algumas mãos e muitas contramãos passeando na construção sintática e semântica - e tudo isso sem o menor pudor (aliás, pudor pra quê?). 

 

“as deusas de seios decepados

ninando os hereges no berço de judas

santa teresa d`ávila desejou a morte

a menina indígena foi jogada

do penhasco após estupro coletivo

é possível que todos sofram - até deus

 

(do poema “até deus”)

 

“Os dedos das santas costumam faiscar, formalmente, procurou se exprimir num sentido pós-moderno, se desamarrando das convenções, a começar pela falta de pontuação e pelo ritmo da obra”, afirma Conceição. E isso está muito bem materializado no poema “de um corte de tecido”, um conto em versos habilmente tecido:

 

de um corte de tecido

“pede-se um metro

dois... três...

e lá vai a sorridente

cambraia pontilhada alva

ser voyeur do outro lado do corpo

tatuado de flores minúsculas

cobrir os seios trêmulos

de recorte noticiário

a moça lívida maculou a cambraia

que era branca depois sem cor

numa redoma assistida vestida de noiva

os olhos vendados na capa do jornal

a cambraia foi ao depósito de lixo

pelas mãos do legista - rasgada sem dó

 

Brincar com a pontuação, e mais ainda com a falta dela, ajuda a produzir algumas imagens poderosas, com cortes secos no nosso modo de ver o outro. Conceição brinca com a pontuação (e a falta dela), brinda com contrastes lancinantes, manda um foda-se ao belo-falso-vigente.

 

mickey mouse

“mamãe morreu como um rato

presa numa armadilha de cola

e de tanto revolver o couro

a pele foi saltando da casca

- foram-se os pelos

ficou a carne expiada -

mamãe morreu como um rato

na ratoeira de ferrugem

presa com o projétil falho

enfiado na barriga

- o queijo ficou às moscas

e a fome sobreviveu - faminta -

 

mamãe morreu como mickey mouse

segurando um míssil glorioso

não teve nem ferimento leve

tudo explodiu na minha cara

 

mamãe morreu como um rato

com as tripas

estouradas de chumbinho

contorcendo-se diante de

meus pés ao pé de minha porta

 

mamãe morreu como um rato

- os desocupados tiveram espetáculo

ocuparam o tempo de ócio -

enquanto eu recolhia as cinzas

e lustrava os ossos

 

A hipocrisia levando porrada. Epígrafes de rock’n roll. A autora sai navalhando o mundo. Tudo o que entala, incomoda, avilta. Corta tudo. Corta e ressignifica com a lâmina que só a poesia é capaz de fazer.

 

“o enjoo aumenta se me deito

na cama para reparar no dossel

- repleto de estrelinhas desbotadas -

tão inútil e despovoado de gozos

quanto sexta-feira santa de cinzas

sinto falta de músculos para

me esquentar - um homem - poderia ser

sou tão cínica

quanto o padre fazendo

cruzes sobre as nossas testas de aflições

o cinismo é minha única arma

para cada homem uma cor de batom

 

(do poema “equilíbrio”)

 

A palavra bate na hipocrisia religiosa, bate na política, bate nos incômodos de um mundo desigual e injusto, tudo sem o menor indício de pieguice ou repetição. “Acredito no livro como uma crítica severa ao fundamentalismo religioso que tem sua responsabilidade nesse caldeirão dantesco insuportável que é ainda a convivência social... hipócrita, cruel e injusta. Eu não queria perder a fé, mas a esperança é sempre a primeira que morre”, crava.

E haja contrastes incisivos, obrigatórios. Inevitável, pro leitor atento, não dar um sorriso estranho após ler coisas como o poema abaixo - aliás, há vários embebidos no tema do suicídio, da morte, da vida torpe, igualmente viscerais.

 

um pássaro

de vidro

lançou-se do precipício

com o coração pulsante e cinza

por debaixo das penas salitre e arrepio

as frutas saltaram dos pomares

há sempre cordas nos pescoços

nos topos das árvores no peito dos suicidas

em qualquer caixa de fossos

na frieza do final da madrugada

um pássaro de vidro

assoprou as saias do domingo

irritante e amarelo-mostarda

 

- uma montanha russa de esôfago? -

o dia inteiro o gosto de bile na língua

 

Santidade é o quê? “Um santo é o trabalhador que acorda e dorme para trabalhar. Que é roubado de seus direitos, que mora mal, come mal, veste mal, não tem acesso à saúde, educação, arte, cultura e muito menos lazer, enquanto os homens das canetadas estão cientes e confiantes que os trabalhadores vão aguentar tudo o tempo todo sem fazer nada”. A noção do belo, do perfeito, do sacro, tudo se revira na força dos seus versos, independente de qualquer crença - a crença é na palavra.

 

as mariposas da rua da amargura

são deusas de pernas abertas

santanas afrodites heras

medusas do céu de vênus

descamisadas

caídas nos colchões

de porras e pulgas

de qualquer puteiro

empestado de machos

as mariposas da rua

as mariposas da

rua da amargura

proliferam de cem e sem mil

em qualquer puteiro

debaixo das aroeiras

da rua do bom jesus

que não acode as madalenas

de todas as semanas

amarguradas

recebem sífilis pá e cal

da rua das mariposas

as santas dos amargos

 

Não dá para entregar mais, é preciso comprar e devorar o livro. Mas não ficamos por aqui: batemos um papo com Conceição Rodrigues sobre seu novo livro e outras coisas mais. Confira abaixo na íntegra - ao final, saiba mais sobre a autora, detalhes do lançamento deste sábado no Recife e, também, como adquirir a obra.


 

TESÃO LITERÁRIO- Fala como é esse ladrilho multicolorido, cortante e multifacetado que é a sua criação poética. 

CONCEIÇÃO RODRIGUES- Eu sou escrava da Literatura e de tudo aquilo que me chama a atenção, me incomoda ou não deixa meu juízo descansar... para servir à Literatura... os assuntos vão surgindo naturalmente e são os mais diversos possíveis... esse é o primeiro momento, o momento de exortação ou expurgação. É um momento livre, mas não descompromissado. A hora de simplesmente deixar a escrita fluir. A maneira de escrever ou a técnica surge num tempo posterior e costuma ser o lado mais “matemático” ou “racional” da produção, por assim dizer... é o período mais trabalhoso e exigente, é a hora de observar criticamente, sem concessões ou benevolência comigo mesma... é a hora em que o chicote estala cobrando da escrita a beleza, que pode ser compreendida e encontrada de diversas formas. No caso da poesia, é preciso fazer a intersecção entre a forma do texto e o jeito em que o eu lírico quer se colocar... inclusive quando se dá de cara com o que é terrível, cruel, doloroso.   

 

TL- Como você define Deus e a religiosidade humana diante do inferno da vida? A poesia é algum tipo de salvação?

CR- Muitas vezes penso, como já disseram, que a Terra só pode ser o inferno de outro planeta, com suas tragédias, injustiças, além da nossa condição de mortais e irrelevantes quanto ao funcionamento do universo. Ao mesmo tempo disto, a vida é magnífica e é uma oportunidade de desvendar e vivenciar sensações que valem a passagem por esse vale de lágrimas, mesmo quando gozamos enquanto outros perecem. A religião tem sido utilizada ao longo da história como ferramenta de subjugo e poder na maioria das vezes, embora seja uma ideia bela e até necessária para a existência de muitas pessoas. Há pessoas que mantém sua religiosidade independente das religiões. Eu tenho uma relação muito vária com Deus. Às vezes o vejo na natureza e contemplo a grandiosidade de tudo quanto existe. E Deus é bom e perfeito. Quando relembro alguns fatos históricos ou assisto a coisas terríveis que acontecem, duvido muito que ele exista. É o que acontece na maioria das vezes, e tem um lado bom nisso... é o lado da consciência que diz que temos que nos virar por nossa conta, isso traz responsabilidade. Em outros momentos acredito piamente que Deus existe e é mau. Diverte-se com essa palhaçada cósmica que nós proporcionamos. Parece-me que a salvação somos nós. Mas sempre estamos com preguiça. A minha salvação é a Literatura. Ela não descansa. 

 

TL- A lida com alunos da rede pública, a sua situação enquanto professora, a escrita. Escrever literatura é um encaixe pro mundo ou a maneira mais eficaz de sê-lo - ou combatê-lo?

CR- Escrever literatura é minha maneira pessoal de sobreviver. Com relação à literatura e mundo, parafraseio Faulkner, que diz que a Literatura é como um fósforo aceso em meio à escuridão, não ilumina, mas mostra o quanto estamos às escuras… A educação mostra como as coisas são e funcionam, tem um poder de transformação social incrível, traz oportunidades, equidade, sem a educação tudo piora. Mas ela não garante bondade no coração dos homens. Vejamos o nível cultural da Alemanha e o que ela produziu na Segunda Guerra Mundial, por exemplo.

 

TL- O que você espera de um livro seu quando lançado? Como você lida com o olhar de fora?

CR- Quero ser lida. É uma maneira de não estar sozinha. De me rebelar quanto à morte.

Já tive medo do olhar de fora. Considero-me um pouco mais tranquila atualmente. 

 

TL- Quais barreiras para mulheres escritoras permanecem eretas? 

CR- Os mais prestigiados são geralmente homens, brancos, e pelo menos de classe média. Imagino quantas escritoras passaram pela história e não as conhecemos, e talvez não tenhamos nunca a oportunidade de conhecer… As mulheres sempre estiveram na área, mas sempre foram “abafadas” de uma maneira ou de outra... acho que as coisas vêm melhorando... aos poucos... vamos transformando as coisas ao lado de pessoas que acreditam que as mulheres são gente. 

 

TL- Ampliando a pergunta anterior: qual o seu tesão pra manter firme a pegada na escrita e no mundo literário?

CR- Meu tesão pela Literatura é de corpo e alma. Não há nada que me interesse mais que Literatura. 

 

TL- Este Os Dedos das Santas Costumam Faiscar são uma dedada nas feridas nossas. Trata-se de um grito, uma afirmação, uma reza, apenas poesia, ou tudo isso junto? (ou nada disso no final das contas?)

CR- Tudo isso junto e ainda tem mais. Entre outras coisas, Os dedos das santas costumam faiscar, formalmente, procurou se exprimir num sentido pós-moderno, se desamarrando das convenções, a começar pela falta de pontuação e pelo ritmo da obra. Também acredito no livro como uma crítica severa ao fundamentalismo religioso que tem sua responsabilidade nesse caldeirão dantesco insuportável que é ainda a convivência social... hipócrita, cruel e injusta.

 

TL- O que é santo?

CR- Um santo é o trabalhador que acorda e dorme para trabalhar. Que é roubado de seus direitos, que mora mal, come mal, veste mal, não tem acesso à saúde, educação, arte, cultura e muito menos lazer, enquanto os homens das canetadas estão cientes e confiantes que os trabalhadores vão aguentar tudo o tempo todo sem fazer nada. Os poucos subjugados que se rebelam viram mártires. Eu não queria perder a fé, mas a esperança é sempre a primeira que morre. 

 

TL- Nesse caldeirão que é o mundo hoje, ainda mais o Brasil, o que esperar (ou fazer) do futuro?

CR- Há dias em que eu tenho esperança, uma esperança amarelada e desnutrida. Há dias em que a esperança está até viva. Outras vezes eu penso que a única saída possível para o Brasil passa pelo aeroporto. Este cenário atual é sem dúvida terrível. É necropolítica. Eles são muito bons em serem péssimos. Assistimos a destruição do país em diversas frentes, de camarote. Fizemos pouco. Pouco demais. Esse fenômeno infelizmente parece ser mundial. Não sei quanto tempo será preciso para reparar o mal que foi causado a este país, alguns desses males (perdas de vidas) são irreparáveis. A mim restou gemer nas páginas dos meus livros. A literatura me dá essa vantagem. Pelo menos posso gemer, amaldiçoar e publicar essas dores.

 

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SERVIÇO

Os Dedos das Santas Costumam Faiscar (patuá, 2022), de Conceição Rodrigues.

Lançamento no Recife dia 22 de janeiro de 2022 (sábado), 18h

Local: Cultura Nordestina

 

COMPRE AGORA O LIVRO:

https://www.editorapatua.com.br/produto/255192/os-dedos-das-santas-costumam-faiscar-de-conceicao 

 

CONCEIÇÃO RODRIGUES

Nasceu em Arcoverde, portal do sertão pernambucano, mas viveu a maior parte do tempo em Recife, onde mora até hoje. É graduada em Letras e tem especialização em Literatura. Leciona na rede pública de ensino. Recebeu menção honrosa no III Prêmio Pernambuco de Literatura com o livro de contos “Corda para nós”, e no IV Prêmio Pernambuco de Literatura recebeu menção honrosa com o romance “323”. Trabalhou como assistente de Raimundo Carrero na Oficina de Criação Literária - UBE. Organiza e participa de antologias. Dá assessoria em produção textual em diversos gêneros e áreas. Publicou em 2020 “Molhada até os ossos”, livro de poemas, pela Editora Patuá.

[email protected]

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