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Opinião

Conexão SP: Paratimbum-bum-bum

Por: SIDNEY NICÉAS
O dramaturgo e escritor Mário Viana traz sua nova crônica sobre as marchinhas de Carnaval.

Foto: Victoria Monochrome/Unsplash

05/02/2024
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*Por Mário Viana

Chico Buarque que me perdoe. Caetano e Gil, conto com vossa compreensão. Assim que tiver tempo, acendo vela pra Noel Rosa e Lupicínio Rodrigues. Esta é a época do ano em que um devoto radical desses compositores esvazia o oratório e dedica rezas a Haroldo Lobo, Antônio Nássara, João de Barro e Alberto Ribeiro. Os quatro formaram as duplas mais imbatíveis das marchinhas de carnaval de todos os tempos. Duvida?

Até hoje, não há quem resista aos primeiros versos de Alá-lá-ô, lançada por Lobo e Nássara no carnaval de 1941 e, na minha modesta opinião, a letra mais louca do nosso cancioneiro. Não tem pra ninguém. Nem pro “olho cego vagueia procurando por um”, do Zé Ramalho.

Além de servir de rima para “mas que calor”, Alá-lá-ô prossegue em pleno exercício de atrevimento: “Viemos do Egito / e muitas vezes nós tivemos que rezar / Alá, Alá, Alá, meu bom Alá”. Para apimentar o tabule, a estrofe termina com um “mande água pra ioiô, mande água pra iaiá / Alá, meu bom Alá”. Imagine um talibã ouvindo essa marchinha lá nas montanhas do Afeganistão.

Quando me dei conta da criativa salada que é essa letra, entendi de onde vieram as estripulias tropicalistas de Caetano e Gil, por exemplo. Um povo que rima iaiá com bom Alá saiu definitivamente dos limites. É a grande maravilha da alma brasileirinha.

Antes de Nássara e Lobo, quem deu as notas em marchinhas carnavalescas foi a dupla João de Barro e Alberto Ribeiro. João, mais conhecido nas paradas de sucesso como Braguinha, era uma usina de sucessos de salão. Só em 1938, emplacou três obras-primas: uma com Noel Rosa, As Pastorinhas (aquela da “estrela dalva que no céu desponta”)  e duas com Alberto Ribeiro: Yes, nós temos banana e Touradas em Madrid (de onde tirei o título desta crônica). Braguinha fez o Brasil inteiro pular junto aquele ano.

“Banana, menina, tem vitamina / Banana engorda e faz crescer” é um espetáculo de malícia e duplo sentido. Anitta e os MCs do funk apenas atualizaram as saliências. Já as Touradas enveredam pelo caminho do mais legítimo non sense: “Eu conheci uma espanhola, natural da Catalunha, / queria que eu tocasse castanhola e pegasse um touro à unha”. Isso já garantiria o riso dos foliões, mas a letra prossegue em tom indignado: “Caramba, caracoles, / sou do samba, não me amoles,/ pro Brasil eu vou fugir / Isso é conversa mole para boi dormir”. Acrescente o “paratimbumbumbum” e a marchinha incendiava as pistas.

Se isso não for o verdadeiro espírito do carnaval, nada mais será. A inversão dos mundos, a releitura dos conceitos, o absurdo como regra. Carnavel é isso, desde a Idade Média, quando durante três dias os aldeões promoviam o doidinho da vila a rei de tudo e, nas missas, em vez de rezar, as pessoas zurravam feito burros. Era a Missa do Asno. Acontece que, na Europa, o carnaval era um sortilégio para espantar o inverno rigoroso e saudar a primavera que se avizinhava. O Brasil trocou o frio pelo calor, arrancou as roupas, jogou uns confetes e mandou brasa.

O mesmo caminho irreverente nos levou à divertida Xô, Satanás, do Asas de Águia, que arrastou multidões há poucos anos. Se bobear, ainda arrasta. Eu, por exemplo, não ofereço resistência. São essas letras, justamente por serem sem pé nem cabeça, que fazem a gente pular sem medo.

E quando um compositor imenso, tipo Caetano Veloso, manda um Chuva, Suor e Cerveja, o ciclo se completa. “Acho que a chuva ajuda a gente a se ver”- acho, chuva, ajuda, gente… Tem melhor palavrório pra mostrar o som dos pés chapinhando a água no asfalto? Essas letras abrem caminho pra gente sorrir feliz, apenas por cantar alto no meio da multidão. Tem horas em que o noticiário perfeito se resume a um “mande água pra ioiô, mande água pra iaiá, Alá, meu bom Alá”.

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Mário Viana é Dramaturgo, autor-roteirista de novelas, cronista, jornalista. Paulistano.

https://vianices.wordpress.com/

https://www.instagram.com/marioviana

https://www.facebook.com/mario.viana.948

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