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O filme que foi sem quase ter sido

Por: SIDNEY NICÉAS
O longa Amigos de Risco ficou mais de 15 anos num imbróglio para poder estrear comercialmente

Foto: Divulgação

05/06/2022
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*por Sidney Nicéas

Como uma obra pode espelhar uma cidade e, uma década e meia depois, permanecer atual, mesmo com tantas mudanças que colocaram o mundo de cabeça para baixo? Assistir ao filme Amigos de Risco, que estreou no final de maio no Recife, é sentir isso. E essa sensação que parece achatar o tempo acabou sendo fruto de um imbróglio digno de uma boa ficção: em 2008, antes de ser exibido na Mostra de São Paulo (e entrar assim em salas comerciais), a cópia- zero do filme, finalizado em 35 mm, foi extraviada por uma companhia aérea. A versão não finalizada acabou salvando a exibição na Mostra, mas a falta de recursos para finalizar uma nova cópia inviabilizou tudo. A alternativa foi processar a companhia aérea. Começou aí o tal achatamento do tempo, já que mais de 15 anos depois o filme acabou, enfim, estreando comercialmente, sem perder seu teor atual, mesmo em tempos de grandes transformações.

“Uber, Pix, Waze, 4G, 5G… Tudo isso mudou muito a forma nos relacionamos à cidade e uma versão 2022 da história teria que apresentar desafios completamente diferentes a essa narrativa. Mas creio que a hostilidade entre os personagens e a cidade, se não é a mesma, piorou de lá para cá. Creio que passamos por um momento de mais dureza nas relações humanas e pessoais”, explica Daniel Bandeira, diretor e roteirista do filme. 

Daniel também realça o absurdo de ter que acionar a justiça para ter direito ao que lhe pertencia, numa grande perda de tempo e recursos que poderia ter sido minimizada por um senso de responsabilidade cultural da companhia aérea. “Certamente a iniciativa privada precisa ter um olhar mais apurado e colaborativo para a produção cultural no Brasil. Não apenas por uma questão de responsabilidade social das empresas, mas também porque, bem geridos, esses projetos podem gerar bons retornos culturais e até financeiros para as próprias empresas”, explica. 

Todo esse tempo e dor de cabeça, de alguma forma, acabou trazendo benefícios para a obra. As reflexões sobre o Recife de 15 anos antes acabam ganhando força nesse momento em que a cidade perece sob as fortes chuvas, e os mais prejudicados são as pessoas mais pobres, que vivem à margem. “Desde sempre Recife é uma cidade presa no tempo, disputada pelo arcaico e pelo moderno, indecisa entre ser metrópole e ser província. É uma luta constante, que está tanto nas artes quanto no cotidiano. A chuva “lava” a lama dos morros e expõe um pacto social doente, que viceja do desequilíbrio de renda e do zoneamento discriminatório do espaço urbano”, crava.

Outro ponto interessante vem da equipe que trabalhou no filme, desde a técnica até o elenco. Vários nomes ganharam peso nesse período, como o próprio Daniel, que à época havia co-roteirizado, co-dirigido e montado, junto ao ainda regional Kléber Mendonça Filho, os curtas Menina de Algodão e Vinil Verde. Também podem ser citados nomes como Pedro Sotero, Kika Latache, Juliano Dornelles, Marcelo Pedroso, Marcelo Lordello, Amanda Gabriel, Rodrigo Riszla, Jr. Black e Ananias de Caldas. Sem falar, claro, no ator Irandhir Santos, que quando gravou o filme ainda era um quase desconhecido e hoje, com a estreia comercial, é uma referência no país.

“Aprendi muito do meu ofício com todo o elenco do filme, inclusive com Amanda Gabriel, nossa preparadora. Mas com Irandhir, especificamente, aprendi a importância de se ter uma coesão interna entre seu elenco. Onde todos se apoiam, cria-se um ambiente de trabalho e, sobretudo, saudável”.

Provocado sobre a estreia no Cinema São Luiz, um dos poucos cinemas de rua do país, numa cidade que coleciona farmácias e igrejas de vários credos em cada uma de suas esquinas ao invés de cinemas, teatros e livrarias, Daniel Bandeira é cirúrgico: “Num ambiente onde não se valoriza nem se cultiva a cultura, não se pode esperar que os espaços culturais prosperem”.

Após tanto tempo e esforço, ver o filme exibido realça o principal fim de uma obra, a de chegar ao público. “Estrear em salas depois do que passamos traz a sensação de missão cumprida, de termos dado a volta por cima. Afinal, o filme praticamente só passa a existir quando você lança ao público. Sou extremamente grato a esse esforço coletivo que fizemos para trazê-lo de ‘volta’. Foram justamente as boas relações, com pessoas que fui agregando ao longo da vida, que proporcionaram a estreia do filme agora”, finaliza.

Leia abaixo na íntegra a entrevista que fizemos com Daniel Bandeira, uma leitura obrigatória pra gente tentar entender melhor a cidade que somos, o poder da arte e da cultura e, acima de tudo, de uma amizade - ao final assista ao trailer, saiba onde você pode assistir ao filme Amigos de Risco e confira a ficha técnica da obra.

 

TESÃO LITERÁRIO- Impossível não começar essa entrevista sem perguntar sobre a epopeia para que Amigos de Risco estreasse: esmiúça esse imbróglio, inclusive o jurídico, pra gente… 

DANIEL BANDEIRA- Em 2008, indo para a exibição na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, nossa companhia aérea extraviou nossa cópia em 35mm. Após pouco mais de um ano tentando reencontrar a cópia perdida, entramos com uma ação na Justiça que resultou num acordo em 2014. Foi o suficiente para remasterizar o filme em formato digital, que ganhou uma exibição no Janela Internacional de Cinema em 2015, mas eu ainda não sabia como fazer para distribuir o filme. Só então fui abordado por Kika Latache e Lívia de Melo, que se dispuseram a fazer um projeto de distribuição para o filme no qual embarcou Mariana Jacob, da Inquieta Cine. Graças a elas, ADR cumpriu essa última etapa para chegar até ao cinema. 

TL- Por que a empresa aérea não assumiu logo a culpa e ajudou para ‘salvar’ o filme? Falta sensibilidade artística (e humana) ao empresário brasileiro? 

DB- Não posso responder pela companhia, mas certamente a iniciativa privada precisa ter um olhar mais apurado e colaborativo para a produção cultural no Brasil. Não apenas por uma questão de responsabilidade social das empresas, mas também porque, bem geridos, esses projetos podem gerar bons retornos culturais e até financeiros para as próprias empresas. 

TL- Essa confusão toda com a película acaba nos remetendo ao fazer artístico no Brasil. Quando sairemos dessa zona e conseguiremos o merecido respeito enquanto fazedores de cultura? 

DB- Chegamos a ponto de descaso com a cultura através de um modelo muito arcaico, no qual a alienação popular garante lucro e diminui riscos de investimento. Reverter esse processo, igualmente, requer tempo - gerações, literalmente - e uma reconstrução paciente da relação do povo com o próprio país através da educação responsável e consciente, da cultura e das políticas públicas. 

TL- É interessante observar que Amigos de Risco, mesmo mais de 15 anos depois, manteve-se bem atual. Como você enxerga isso?

DB- Uber, Pix, Waze, 4G, 5G… Tudo isso mudou muito a forma nos relacionamos à cidade e uma versão 2022 da história teria que apresentar desafios completamente diferentes a essa narrativa. Mas creio que a hostilidade entre os personagens e a cidade, se não é a mesma, piorou de lá para cá. Creio que passamos por um momento de mais dureza nas relações humanas e pessoais. Amizades têm sido revistas e refeitas tanto por conta da pandemia quanto pelo cenário político. Homens, sobretudo os da periferia, têm sido confrontados no exercício de uma masculinidade que já não se sustenta mais, enquanto são continuamente explorados por modelos de trabalho igualmente insustentáveis. Por esses e outros temas, ADR mantém sua atualidade. Infelizmente, é uma constatação de que não evoluímos tanto de lá para cá. 

TL- Nessa temática do digital, o filme foi produzido numa época em que o digital ainda não tinha o campo que tem hoje. Diretores como Christopher Nolan por vezes buscam sair desse excesso de “digitalização” do cinema - outros, como Jean-Luc Godard, têm se valido de várias bitolas numa única película. Vivemos o digital em excesso ou é a tendência e pronto? 

DB- Onde se vive um paradigma, dificilmente entendemos como excesso. Quando comecei a trabalhar com vídeo digital, o que fazíamos não era considerado cinema - mas hoje é o padrão de produção e exibição internacional. A película vem sendo tida como uma espécie de guardião da pureza do cinema - mas “pureza” é uma qualidade que sequer faz parte da essência de uma arte que é composta de outras artes. Sempre abracei uma linguagem e uma estética que hoje considero bem representadas no suporte digital. Sei que não sou o único. Reconheço o valor de se filmar em película, mas sua hegemonia já não é mais sustentável e a própria indústria já o reserva a lançamentos específicos. Agora, cinema mesmo, eu sei que não morre.

TL- Como foi trabalhar com o ainda meio desconhecido Irandhir Santos e lançar o filme quando ele já era (é) um ator consagrado? 

DB- Desde o início, Irandhir já demonstrava as qualidades que o fizeram ser um ator tão requisitado e querido. Sua disponibilidade, seu compromisso, sua criatividade em set. Aprendi MUITO do meu ofício com todo o elenco do filme, inclusive com Amanda Gabriel, nossa preparadora. Mas com Irandhir, especificamente, aprendi a importância de se ter uma coesão interna entre seu elenco. Onde todos se apoiam, cria-se um ambiente de trabalho e, sobretudo, saudável. Volta e meia converso com atores que contracenam atualmente com Irandhir. Fico feliz em saber que ele só se aprimorou a partir desse ponto. 

TL- O Recife do filme carrega características bem atuais, todavia, traz um Centro que ainda abrigava grande efervescência cultural. Por que essa cidade não consegue se manter plena, está sempre numa espécie de autofagia? Ou você acredita que isso é um processo normal em grandes centros urbanos? 

DB- Desde sempre Recife é uma cidade presa no tempo, disputada pelo arcaico e pelo moderno, indecisa entre ser metrópole e ser província. É uma luta constante, que está tanto nas artes quanto no cotidiano. Sabemos olhar para o futuro, mas sem resolver pendências históricas de nosso passado de escravidão, que ainda reverbera em nossas relações atuais, estaremos sempre nesse compasso de hesitação ao longo das próximas gerações. 

TL- Falando ainda do Recife, como você enxerga suas margens, essa maioria tida como minoria e alijada dos grandes investimentos? Toda essa tragédia com as Chuvas fazem parte disso também? 

DB- Sem dúvida. A chuva “lava” a lama dos morros e expõe um pacto social doente, que viceja do desequilíbrio de renda e do zoneamento discriminatório do espaço urbano. 

TL- Estreando no inigualável Cine São Luiz (hoje fechado para reforma), o filme de alguma maneira desperta a magia do cinema de rua. Por que o Recife não é lotado de cinemas, livrarias, e teatros? (pelo contrário, o que mais tem é farmácia e templos religiosos!) 

DB- Num ambiente onde não se valoriza nem se cultiva a cultura, não se pode esperar que os espaços culturais prosperem. A formação de público é um trabalho permanente, consistente, paciente. Ela se dá através da educação e é sustentada por políticas públicas que dão o suporte às atividades culturais. 

TL- Fala um pouco sobre seu novo filme, em produção, “Propriedade”? O que é que dá pra adiantar da obra? 

DB- “Propriedade” é um suspense que leva a uma situação-limite o contexto de incomunicabilidade entre classes e o ponto de colapso a que nossas dívidas históricas da escravidão podem nos fazer chegar em nosso presente. 

TL- Até onde você vai por um amigo? 

DB- Até ao ponto de topar fazer um longa metragem com ele. Mais que isso, eu nem saberia dizer!

 

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ASSISTA AO TRAILER: https://bityli.com/lDsJE   

 

ONDE ASSISTIR AMIGOS DE RISCO:

Recife (PE) - Cinema do Museu e Cinema da Fundação

Aracaju (SE) – Cine Vitória

Afogados da Ingazeira (PE) – Cine Pajeú

Fortaleza (CE) – Cine Dragão

Goiânia (GO) – Cine Cultura

Maceió (AL) – Cine Arte Pajuçara

Manaus (AM) – Casarão de Ideias

Palmas – (TO) – Cine Cultural Palmas

Porto Alegre – Cine Bancários

Rio de Janeiro (RJ) – IMS

São Paulo (SP) – IMS

 

FICHA TÉCNICA:

Amigos de Risco (Brasil, 88 min, 2007)

Roteiro, Direção e Montagem: Daniel Bandeira

Produtoras: Símio Filmes, Cinemascópio e Vilarejo Filmes

Produção:  Kika Latache, Lívia de Melo, Sarah Hazin, Juliano Dornelles, Cátia Oliveira, Daniel Bandeira

Produtores Associados: Plano 9 Produções e Leo Falcão

Elenco: Rodrigo Riszla, Paulo Dias, Irandhir Santos, Jr. Black, Lilian Kelen, Pierre Leite, Raimundo Branco, Regina Carmem

Assistente de direção: Marcelo Lordello

Diretor de Fotografia: Pedro Sotero

Direção de Arte: Juliano Dornelles e Ananias de Caldas

Som Direto: Phelippe Cabeça

Música Original: Tomaz Alves Souza e Chambaril

Figurino: Ingrid Mata

Preparação de Elenco: Amanda Gabriel

Distribuição: Inquieta Cine

Imprensa: Noticittà  Assessoria| Leticia Pontes

 

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