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Para os que não estão na "vitrine"

Por: SIDNEY NICÉAS
Feira de Publicações Independentes vai agitar Olinda neste domingo, chance pra conhecer a produção independente

Foto: Divulgação/Arte Tesão Literário

13/03/2022
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*por Sidney Nicéas

Ter uma editora independente no país é, mais do que um desafio descomunal, uma afirmação de que, sim, é preciso criar soluções corajosas para fugir das armadilhas dos mercados e manter a batalha pelo livro ativa. Também é sinônimo de subsistência para aqueles que labutam nessa área, afetadíssima pela crise econômica, pandemia e ausência de políticas públicas para o setor. É por isso mesmo (e um pouco mais) que o escritor, editor e produtor Rodrigo Acioly, da Titivillus Editora, em parceria com a Casa Balea, promove a Se Fizer Sol - Feira de Publicações Independentes, que tem entrada gratuita e reunirá editoras e autores independentes hoje (domingo, 13), das 14h às 20h, na Casa Balea, na Cidade Alta, em Olinda (PE).

A feira é uma ótima oportunidade para comprar e (re)descobrir autores e publicações fora do convencional. Para Rodrigo Acioly, que encarou a Pandemia com seriedade e teve que se virar no universo virtual, ainda vai além. “A feira é uma saída da caverna, uma volta ao sol, às ruas. O mundo virtual (como fim em si mesmo) é pouco e absolutamente insatisfatório. O meu jogo é de encontros presenciais e livros físicos. Não tenho como fugir disso. Então, essa feira representa pra mim esse retorno aos meus próprios fundamentos”, explica.

O evento traz, em sua primeira edição, os mais diversos tipos e formatos de publicações e impressos: livros, opúsculos, fotolivros, livros de artista, prints, cartazes, zines etc. E isso valoriza o outro lado, a cena que não desiste, que busca inovação e que nem pensa em se amiudar. Para Rodrigo, o negócio é sacudir tudo e mirar em novas perspectivas. “O que me importa agora é como voltar a ocupar as ruas, os espaços de arte etc. Ainda não estamos em um ponto de retorno total, o carnaval ainda não é para agora, mas já podemos vislumbrar os lampejos dionisíacos”.

Essa ânsia é genuína e também se ampara na crença no livro. Parece chover no molhado, mas não é: a transformação de uma nação passa pelo livro, pela leitura, pela educação, pela cultura. E pensar o livro no Brasil é obrigatoriamente pensar nas saídas possíveis, focadas basicamente em políticas públicas de fomento - ainda raríssimas -, que derrubem as barreiras e possibilitem o acesso ao livro em todas as suas amplitudes. Por isso mesmo a cena independente, mesmo bastante afetada, não cede à desistência. “A edição independente, justamente por ser independente, vai continuar promovendo as pequenas explosões literárias por todos os lugares. Não há previsão de extinção para a experiência do livro e da literatura. Agora, a crise do mercado editorial afeta diretamente as pequenas e pequeníssimas editoras. É por essa razão que as políticas públicas são fundamentais, para expandir o acesso e permitir inclusive que mais editoras possam nascer e se profissionalizar”, conclui Rodrigo.

SE FIZER SOL

A feira reunirá diversas editoras, além da Titivillus: Livrinho de Papel Finíssimo, Castanha Mecânica, Vacatussa, Ed. Araq e Selo Além Mar. Também, autores com seus livros, como Renata Santana, João Paulo Parísio, Katarine Araújo, e artistas como Joana Pena e Davi Robalinho, além de dois lançamentos, de Karuna de Paula com "Mulher Vestida de Casa" e Jeder Janotti Jr. com “Manual de Anti-Ajuda Acadêmica”, lançados durante a pandemia, mas que aguardavam um lançamento presencial. 

Ainda vai rolar a exposição DELAS, mostra coletiva de mulheres reunindo 30 artistas de diversas gerações, experiências, estilos e técnicas, com nomes como Bia Melo, Clara Moreira, Clarissa Machado, Dani Acioli, Joana Liberal, Maré de Matos, Mirela Rodrigues, Nathalia Queiroz, Rebecka Zamali e Teresa França, dentre outras. O evento é para pessoas vacinadas e obedece os protocolos sanitários vigentes.

ENTREVISTA

A gente bateu um papo com Rodrigo Acioly via whatsApp sobre o evento, a situação das editoras independentes, o mercado, a Amazon, a falta de políticas públicas e mais. Confira abaixo. No final você encontra links para contato com a Titivillus Editora e a Casa Balea.

 

TESÃO LITERÁRIO- Perguntar não ofende: como está o mercado independente de livros?

RODRIGO ACIOLY- O mercado de livros está, como quase todo mundo, tentando sobreviver a uma pandemia mundial e um governo absolutamente e especialmente destrutivo para o campo da arte e da cultura.

 

TL- A Feira Se Fizer Sol, por si só, já é um ato necessário. O que mais ela representa, especialmente nesse momento onde as incertezas se avolumam?

RA- Aqui vou me dar a liberdade de falar no que ela representa para mim. Uma saída da caverna, uma volta ao sol, às ruas. Durante a pandemia segui as recomendações sanitárias, recolhi o bloco editorial das ruas e tentei investir minha força na virtualização da editora, então, fiz um site, participei de lives, lancei livros virtuais e físicos, até feira de livros virtual participei. E, sabe de uma coisa, o mundo virtual (como fim em si mesmo) é pouco e absolutamente insatisfatório. A Titivillus é uma editora de livros físicos, muitos artesanais, com uma proposta de radical confusão entre manuseabilidade e legibilidade, enfim, tem que tocar no livro, abrir suas páginas e jogar seu jogo. O meu jogo é de encontros presenciais e livros físicos. Não tenho como fugir disso. Então, essa feira representa pra mim esse retorno aos meus próprios fundamentos. E, sabe o que é engraçado? Por ter assumido a organização da feira e todas as tarefas que isso acarreta, a editora tá postando (no mundo virtual) mais do que nunca. Mas isso não é um paradoxo, é que a função da internet e das redes sociais como agenciadoras de encontros é excelente. Quanto mais encontro, mais materialidade, mais virtualidade. Acho que é essa uma estranha fórmula que estou vivenciando.

 

TL- Sem políticas públicas sérias de incentivo ao livro e à leitura, editoras independentes tenderão a se multiplicar? Ou este mercado tenderá a se extinguir diante de tantos muros?

RA- A edição independente, justamente por ser independente, vai continuar promovendo as pequenas explosões literárias por todos os lugares. Não há previsão de extinção para a experiência do livro e da literatura. Agora, a crise do mercado editorial afeta diretamente as pequenas e pequeníssimas editoras, desde o preço do papel, ao acesso aos insumos básicos, ao custo da impressão nas gráficas (ou em casa), isso para não falar na distribuição, espaços de divulgação, discussão etc. Tudo isso causa um achatamento no horizonte editorial, reduz o público leitor, e até mesmo as próprias editoras se tornam mais raras, e, pior, mais caras, ficando restritas a nichos de moda e consumo. É por essa razão que as políticas públicas são fundamentais, para expandir o acesso e permitir inclusive que mais editoras possam nascer e se profissionalizar. Então, com política pública séria de incentivo à cultura, à leitura e ao livro, o mercado cresce, a bibliodiversidade aumenta, e também o público leitor.

 

TL- Complementando a pergunta anterior, como você vê a escassez de livrarias nas cidades brasileiras? (Perguntamos mesmo sabendo que a maioria delas, as livrarias, em sua maioria, nunca consideraram seriamente o mercado independente - mas isso não tira a relevância delas)

RA- Mesmo com a desconexão total do modelo de grande livraria com o público leitor e também com a produção local, acho um dos sintomas mais graves no mercado editorial. Agora, isso se deve em parte ao comportamento das próprias livrarias, que é de total desconexão com o universo dos leitores. Livro é uma mercadoria como qualquer outra, você pode dizer, não vou retrucar, mas seu consumo é peculiar e quanto mais ligado à produção literária local estiver, mais próximo da vida cultural da cidade, mais firme será sua existência. Há muito as grandes livrarias abandonaram qualquer relação com a cidade que estão. Aí, me desculpem a franqueza, mas é crônica de uma morte anunciada, repetida, gritada há muito tempo.

 

TL- Com o cenário mundial tensionado pela guerra na Ucrânia e o Brasil sem um norte aceitável, dá pra ter esperanças em curto, médio ou longo prazos?

RA- Vixe… Eu ando bem econômico com a esperança. Travei com a pergunta. Espero que tenha a carta “pular” por aqui.

 

TL- Como você avalia a atuação da Amazon, que leva ao limite os preços dos livros, chegando a provocar a quebra de concorrentes? É a Amazon o começo de uma séria mudança nesse cenário global ou um veneno que trará duras consequências?

RA- Não me relaciono com a Amazon, meus livros não estão lá. E quanto mais longe o mercado independente estiver dela, melhor. Por isso, o conselho de sempre: compre no site das editoras.

 

TL- Num país com significativos déficits de leitura (de escrita literária, mais ainda), o que você tem feito para manter a Titivillus Editora de pé? Quais caminhos você têm traçado?

RA- Durante a pandemia basicamente sobreviver e não endoidar. Como disse acima, tentei virtualizar a editora, mas não foi lá muito satisfatório. O que me importa agora é como voltar a ocupar as ruas, os espaços de arte etc. Ainda não estamos em um ponto de retorno total, o carnaval ainda não é para agora, mas já podemos vislumbrar os lampejos dionisíacos.

 

TL- Um livro publicado é…

RA- O ponto mais brilhante de um processo criativo.

 

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SERVIÇO

13 de março (Domingo), das 14h às 20h

Casa Balea / A Casa do Cachorro Preto

Rua Treze de Maio, 99 – Cidade Alta – Olinda

Entrada gratuita

 

CONTATOS

https://www.titivilluseditora.com.br 

https://www.instagram.com/titivilluseditora 

https://www.instagram.com/casabalea 

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