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Literatura

Samarone Lima: “para desanuviar as mazelas que nos consomem”

Por: SIDNEY NICÉAS
Lançando O Elefante Azul, seu novo livro de crônicas, Samarone Lima conversou com o Tesão Literário

Foto: Divulgação/Arte Tesão Literário

03/07/2022
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*por Sidney Nicéas

Classicamente, há um incômodo compartilhado por escritores de modo geral com o mundo, a sociedade convencionada, o modo de vida humano, o quase sempre descaso político e social com a formação cultural do povo - o que muitas vezes acaba movendo a escrita. Olhando para o Brasil, tudo isso se amplia. Conversar com o jornalista e escritor Samarone Lima, que está lançando O Elefante Azul - Crônicas das Coisas Mínimas e Desnecessárias (Confraria do Vento, 2022, com pré-venda no site da editora Confraria dos Ventos e entrega para este mês de julho), é atestar isso e, mais, esperançar.

Publicar O Elefante Azul tem significado ampliado para Samarone. “Significa uma realização num período tão difícil do Brasil. Acho que o livro chega num momento muito difícil do nosso país, soterrado por intolerância, violência, grosseria, falta de respeito”. Samarone acredita que o futuro do livro no Brasil passa pela democratização da leitura e não deixa de criticar a falta de vontade política, além da falta de um maior engajamento de escritores e sociedade em geral. “Estamos precisando disso: sair do cada um por si e criar vínculos com os que mais precisam. Precisamos de bibliotecas comunitárias dentro das áreas de maior pobreza, com o menor IDH com urgência total, com mediadores de leitura, contadores de histórias, muitos livros de qualidade, atividades culturais. Nunca vi uma pessoa que se torna leitora abandonar os livros. É quase uma promessa de futuro. Mas o Estado, os municípios, são de uma burocracia gigantesca”, critica.

O título do livro vem de uma das crônicas da obra, mais antiga - e também de um poema publicado no seu livro O Aquário Desenterrado” -, e traz a memória do dia em que sua ludicidade quase lhe foi amputada, refletindo um modelo castrador de educação. No texto, a lembrança das viagens de fusca com a família colide com o fato em questão. Acima de tudo, reflete muito bem os ecos da infância que, muitas vezes, teimam em reverberar por toda uma vida.

“Uma vez, quem vinha na frente (do fusca) era o meu tio César, que hoje mora em Imperatriz, e é casado com a tia Fátima, irmã do meu pai. Não sei porque tio César estava no lugar da minha mãe, mas são coisas da vida. Lá pelas tantas, o meu tio César apontou para uma árvore grande, numa estrada interminável, e disse que tinha visto um elefante azul no alto. Olhei para a árvore e também vi o elefante. “Também vi”, comentei com o tio, do banco de trás. Meu pai me olhou e perguntou se eu tinha visto mesmo um elefante azul no alto de uma árvore. “Vi sim, mas já passou, ele está lá atrás”, respondi. Meu pai me deu um beliscão na barriga que doeu pela infância inteira, atravessou a adolescência, ficou latejando pela idade adulta. “Deixa de mentir”, disse, depois do beliscão. Lembro que fiquei amuado, triste, e naquele momento, aos seis ou sete anos, desisti de ver qualquer coisa que não fosse real, palpável, contável e definitiva”.

Em outra crônica, o autor brinca com uma história inventada por alguns amigos, a de que um menino é quem escreve seus melhores textos, o Menino Tao.

"Algumas pessoas mais chegadas me saíram com essa. Era uma história de que eu tinha um menino, lá em casa, ele ficava debaixo da escada espiralada que leva para o primeiro andar. Em alguns momentos, alguns dias específicos, o menino aproveitava que eu estava dormindo, subia, ligava o computador e escrevia em meu lugar. Os melhores textos, portanto, os mais delicados, penso, seriam do tal menino, ou o Menino Tao, se for o caso. Estou começando a achar que é verdade. Nunca o vejo direito, mas penso que ele existe. Às vezes, quando abro a porta bruscamente, sei que ele conseguiu ficar quietinho, sem respirar muito, para que eu não o veja. Entre nós, portanto, vem surgindo uma cumplicidade de presença e ausência, e já nem reclamo quando ele escreve no meu lugar. No fundo, é bom ter alguém para escrever no lugar da gente, quando falta algo para dizer".

São memórias e situações como essas acima que costuram a obra. Aliás, a poesia de Samarone Lima é repleta de aspectos psico-afetivos que também costumam pigmentar sua prosa. “Espero que tenha muita poesia (nas crônicas deste novo livro), porque tento sempre colocar a poesia em minha prosa, até no jornalismo. Ela é essencial nos meus escritos. As crônicas sempre foram, pra mim, exercícios de transbordamento da alma”, explica. O autor também realça que, em tempos como os de hoje, o livro possa ser uma espécie de antídoto. “O cotidiano que aparece nos textos é o de pessoas simples, conversas, relatos de vivências minhas, encontros. Espero que seja uma leitura para desanuviar estas tantas mazelas que nos consomem”, complementa.

Natural do Crato (CE), Samarone morou em oito cidades de diferentes estados e, há cinco anos, vive em Olinda, onde manteve o Sebo Casa Azul até pouco tempo. É autor dos livros jornalísticos Zé: José Carlos Novaes da Mata Machado - reportagem biográfica, Mazza, 1998;  Clamor - a vitória de uma conspiração brasileira, Objetiva, 2003; e Viagem ao crepúsculo, Casa das musas, 2009, finalista do Prêmio Jabuti em 2010. Em 2014, com o livro de poesia O aquário desenterrado, pela Confraria do Vento, ganhou o 2º Prêmio Brasília de Literatura e o Prêmio Alphonsus de Guimaraens, da Fundação Biblioteca Nacional. Lançou, também pela Confraria, em 2016, A invenção do deserto. Em 2019, publicou, pela CEPE, Cemitérios clandestinos. Desde 2003 escreve crônicas em blogs, sites e revistas. O Elefante Azul é a primeira seleção organizada pela Confraria do Vento.

O pai do pequeno Samir bateu um papo com o Tesão Literário sobre seu novo livro, o que significa escrever e publicar nestes tempos, sobre política, leitura e outros assuntos. Confira abaixo a entrevista na íntegra e, ao final, saiba como adquirir O Elefante Azul.


TESÃO LITERÁRIO- Você, ousamos dizer, é um poeta-cronista do invisível - da alma, das memórias, da psique. O quanto desses aspectos o leitor vai encontrar nas crônicas de O Elefante Azul?

SAMARONE LIMA- Espero que tenha muita poesia, porque tento sempre colocar a poesia em minha prosa, até no jornalismo. Ela é essencial nos meus escritos. Não por acaso, o título do livro é também o título de um poema, que publiquei no livro “O aquário desenterrado”. As crônicas sempre foram, pra mim, exercícios de transbordamento da alma. 

TL- As “coisas mínimas e desnecessárias” são aquelas que muitas vezes nos aliviam do sufoco estranho do mundo?

SL- Creio que tem um pouco disso sim. Acho que o livro chega num momento muito difícil do nosso país, soterrado por intolerância, violência, grosseria, falta de respeito, enfim. O cotidiano que aparece nos textos é o de pessoas simples, conversas, relatos de vivências minhas, encontros. Espero que seja uma leitura para desanuviar estas tantas mazelas que nos consomem.

TL- O “Menino Tao” tem lhe salvado da dureza desses tempos?

SL- E como! Há mesmo algo desse menino que segue vivo em mim. Dizem que ele às vezes aproveita os momentos em que saio da mesa de escrever e se intromete nos meus rascunhos, colocando seu tom de inocência e liberdade. Isso surgiu quando eu morava no Poço da Panela, numa casa de primeiro andar, onde tinha uma escada espiralada. O menino, segundo a versão mais conhecida, ficava debaixo da escada, esperando a mesa vaga.

TL- Fincando os pés no hoje, o que significa escrever?

SL- Sobrevivência psíquica, resiliência, vocação, espaço de liberdade. Respeito muito o sofrimento dos escritores que sofrem escrevendo, mas escrever, para mim, é um momento de profunda alegria, de solidão e mergulho na alma. Se o que estou escrevendo vai ser publicado ou não, é apenas consequência. Por isso tenho diários desde os 13 anos - para continuar escrevendo.

TL- E publicar um livro?

SL- Eles vão surgindo num movimento natural. É sempre um mistério, porque o autor nunca sabe o destino do livro, em quais leitores vai estar. Mas significa uma realização num período tão difícil do Brasil.

TL- Você manteve o Sebo Caza Azul por alguns anos e decidiu fechá-lo recentemente. O que fica dessa experiência quase-mágica-quase-louca de tocar um sebo num Estado feito Pernambuco e num país como o Brasil?

SL- Foi uma experiência maravilhosa, porque eu tinha este sonho, e calhou de realizá-lo justo em Olinda, cidade onde vivo há cinco anos. Acabou que o Sebo virou uma espécie de espaço cultural, com muitos saraus, lançamento de livros, peças teatrais, exposições de fotografia, enfim. Um dos momentos mais lindos foi o aniversário de 89 anos da genial Tereza Costa Rêgo, que ela fez questão de celebrar lá. Foi uma noite realmente memorável.

TL- A escassez de livrarias, sebos e bibliotecas - e a consequente falta de vivência cultural proporcionada por estes espaços - reflete a ausência de políticas públicas e de uma cultura do livro. Concorda? Se sim, como mudar isso?

SL- Sim. Precisamos de bibliotecas comunitárias dentro das áreas de maior pobreza, com o menor IDH com urgência total, com mediadores de leitura, contadores de histórias, muitos livros de qualidade, atividades culturais. Nunca vi uma pessoa que se torna leitora abandonar os livros. É quase uma promessa de futuro. Mas o Estado, os municípios, são de uma burocracia gigantesca. Precisaria chamar as várias bibliotecas comunitárias que existem na Região Metropolitana do Recife, perguntar como essa galera se organiza, como trabalha, e aprender. O primeiro passo é apoiar, fortalecer e viabilizar bibliotecas comunitárias onde tiver gente sem direito aos livros e à leitura.

TL- Há hoje uma ampliação das plataformas digitais de leitura, mas elas reduzem bastante a experiência sensorial de se ler um livro físico. Ele, o livro físico, vai morrer algum dia?

SL- Escuto isso desde que me entendo por gente. No dia em que o livro físico morrer, é porque o fim dos tempos chegou mesmo. Eu mesmo sou um ser absolutamente viciado em papel com as letrinhas impressas.

TL- Num Brasil com índices ainda altos de analfabetismo - seja real ou funcional -, e números bem aquém do ideal de leitura literária, como trabalhar a formação de leitores? Além da falta de políticas públicas adequadas, o que escritores podem fazer para melhorar essa realidade?

SL- Muitas coisas, especialmente os que têm já uma caminhada estruturada, reconhecimento, condições de colocar sua fala a serviço deste bem enorme para qualquer jovem, que é a formação de leitores e a criação de bibliotecas comunitárias. Quando morei no Poço da Panela, participei com mais três moradores (Naná, Boy e Ninha) da fundação da Biblioteca Comunitária do Poço da Panela. Isso foi em 2011 e a Biblioteca segue viva, pulsando, com uma nova gestão. Já formou uma penca de leitores, já tem cria do espaço que está na Universidade. Virou uma espécie de centro cultural na comunidade. Fiquei emocionado quando vi, no auge da pandemia, a Biblioteca ter arrecadado e distribuído, para as pessoas mais necessitadas, centenas de cestas básicas. Isso representa um vínculo profundo com a comunidade. Estamos precisando disso: sair do cada um por si e criar vínculos com os que mais precisam.

TL- Qual a sua leitura de todo esse processo eleitoral que estamos vivenciando, ainda mais com o explicitismo das fake news, disseminadas sem a menor cerimônia? Como fugir das armadilhas dessa esculhambação digital?

SL- Vamos ter um processo eleitoral muito difícil e violento, até porque o Vampiro (me recuso a citar o nome deste presidente inominável) já avisou que não aceita a derrota em hipótese alguma. Minha contribuição tem sido reenviar apenas informações de fontes confiáveis e consultar sempre os meios de comunicação independentes, como Mídia Ninja, Jornalistas Livres, Marco Zero Conteúdo, 247, entre outros.

TL- O Brasil tem jeito?

SL- Tem, mas vai demorar bastante para a gente se recuperar da hecatombe que foi a eleição de 2018 - em todos os sentidos.

TL- Ler é…

SL- Uma alegria infinita.

 

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